sábado, novembro 29, 2025

A transmutação provocada pelo apaixonamento

 

O apaixonamento romântico-erótico é, antes de tudo, um fenômeno de fusão. Não é apenas “gostar muito” de alguém, nem a soma de qualidades agradáveis que, empilhadas, produzem um resultado especial. É algo mais radical: como quando hidrogênio e oxigênio se unem e deixam de ser gases para virar água. Entre duas pessoas, a fusão amorosa cria um estado novo, que não se reduz às características de cada um isoladamente. Nasce um vínculo com sabor próprio, um tipo de apego em que a presença do outro reorganiza o modo de sentir, de pensar e até de olhar o mundo.

Esse estado de fusão aparece em outras áreas da vida: no amor por um filho, no apego a um cachorro ou gato, no orgulho quase patriótico pela própria nação ou por um time de futebol. Em todas essas situações, acontece algo semelhante: a pessoa se torna menos egoísta em relação àquele objeto de apego, sente prazer em pensar nele, sacrifica tempo e recursos, perdoa com mais facilidade. A crítica diminui, a aceitação aumenta. Mas, no apaixonamento romântico-erótico, essa fusão ganha uma coloração específica: envolve erotismo, projeto de casal, lugar social de “parceiro amoroso” e uma promessa de vida compartilhada que não existe do mesmo modo na amizade ou na parentalidade.

Para que essa linha de apaixonamento possa surgir, não basta apenas encontrar alguém “interessante”. Há um pano de fundo silencioso: um certo grau de suscetibilidade interna, um estado em que a pessoa está disponível, carente, curiosa, ou simplesmente em um momento da vida em que faz sentido se aproximar de alguém. Há também o campo de pessoas elegíveis. Na prática, apaixonar-se intensamente por alguém de um mundo completamente estranho ao seu é raro. As diferenças de classe, de estilo de vida, de valores e de redes de relação funcionam como barreiras invisíveis. A homogamia – essa compatibilidade de mundos – não garante a paixão, mas abre a possibilidade. A heterogamia muito grande funciona como um freio: mesmo que haja fascínio, o organismo psicológico percebe o tamanho da encrenca.

Além disso, existem os vetos. Há pessoas que nos atraem à primeira vista, mas logo se revelam humilhantes, indiferentes, agressivas, golpistas, mentalmente instáveis demais. Outras, simplesmente não nos veem, não nos tratam bem, não nos dão nenhuma esperança. A linha do apaixonamento, que poderia começar a se desenhar, é cortada pela percepção de risco, injustiça ou inviabilidade. E há ainda os vetos internos: quem já está comprometido e leva a sério esse compromisso pode desviar o olhar, evitar certas aproximações, reinterpretar acontecimentos justamente para não abrir espaço para um novo apaixonamento. O próprio senso de responsabilidade funciona como antídoto contra o encantamento.

Quando, apesar disso, a paixão nasce, quase sempre há uma figura específica que concentra o processo. Não é qualquer pessoa. É alguém que, aos olhos de quem se apaixona, representa um certo ideal de sucesso dentro do seu mundo. Alguém que seria admirado, respeitado, talvez copiado pelos outros. Uma pessoa de cujo lado se teria orgulho de ser visto. Mais do que isso: essa figura encarna o papel de parceiro amoroso desejável. Tem características físicas que agradam, um jeito de ser que combina com o que se espera de um cônjuge, um modo de viver que convida para um mundo no qual se gostaria de entrar ou permanecer.

Mas ainda assim, só isso poderia levar à amizade, à admiração distante, a uma relação profissional cordial. O que desloca a relação para o canal propriamente amoroso é a marcação romântica. A forma como o outro nos trata como homem ou como mulher, não apenas como colega, amigo ou cliente. O olhar que reconhece nossa masculinidade ou feminilidade de um jeito particular; o flerte, a atitude que deixa claro que ali há desejo e interesse amoroso, não apenas simpatia. É essa marcação – muitas vezes sutil, às vezes descaradamente charmosa – que abre o canal da fusão romântico-erótica.

E então entra em cena algo que Stendhal descreveu com grande precisão: a esperança combinada com uma certa dose de insegurança. Se tudo parecer impossível desde o início, não há linha de apaixonamento que se sustente. Se tudo for fácil demais, garantido, sem riscos, a atenção se dispersa. O combustível da paixão é essa oscilação: um dia um gesto de ternura, um olhar demorado, uma resposta calorosa; no outro, uma demora, uma ausência, uma dúvida. Nessa alternância, a pessoa passa a pensar mais, a desejar mais, a ler sinais, a comemorar pequenos avanços, a sofrer levemente com as lacunas. O tempo de desejar, de fantasiar, de não ter completamente, torna-se tão importante quanto o tempo de estar junto. É nesse intervalo que a mente começa a cristalizar o outro, adorná-lo de qualidades, imaginar cenas futuras, “melhorar” cada detalhe com a imaginação.

Quando essa cristalização atinge uma certa intensidade, acontece a virada: a fusão amorosa propriamente dita. É o momento em que “não consigo tirar os olhos de você” deixa de ser só uma frase de música e vira um estado mental real. O outro passa a ocupar o centro do campo de atenção. Pensar nele é prazeroso. A presença física acende o corpo e acalma ao mesmo tempo. Os defeitos continuam lá, mas encolhem. Os erros são relativizados, explicados, desculpados. Surge uma disposição espontânea para o sacrifício, para a dedicação, para reorganizar planos. É aqui que a causalidade se inverte: não foi a soma das pequenas qualidades que “fabricou” a paixão, é a paixão que agora reorganiza a percepção de todas as pequenas coisas que o outro faz.

Algo semelhante pode acontecer por outras vias. No casamento arranjado, por exemplo, o compromisso vem antes da fusão. Duas pessoas são colocadas no mesmo barco e, a partir daí, começam a ver o mundo um pouco mais pelos olhos uma da outra. O pacto social e familiar funciona como cimento; o amor pode crescer dentro dele com o tempo, às vezes numa forma mais morna, mais próxima do amor de convívio. Há também o caminho pragmático, em que alguém avalia prós e contras, percebe que aquela união é um “bom negócio” afetivo, prático, social, e passa a olhar o parceiro com boa vontade. Em ambas as vias, pode surgir carinho, apego, até uma forma de fusão. Mas o apaixonamento romântico-erótico tem uma intensidade e uma rapidez próprias: já nasce com a lente da fantasia positiva e com a tendência à idealização.

Isso não significa que o apaixonamento seja puro milagre, fora de qualquer compreensão. Pelo contrário, até certo ponto é possível otimizar as chances de que ele aconteça entre duas pessoas compatíveis. Quem deseja conquistar alguém precisa, antes de tudo, estudar o mundo dessa pessoa: que tipo de figura é admirada ali, que estilo de caráter é visto como respeitável, que tipo de parceiro ela teria orgulho de apresentar socialmente, com quem se sentiria crescida, validada, ampliada. Em seguida, é possível trabalhar para aproximar-se, de forma autêntica, de um personagem amoroso que faça sentido dentro desse universo: modo de se vestir, jeito de conversar, coragem, capacidade de iniciativa, delicadeza, humor, firmeza, tudo isso pode ser ensaiado, afinado, amadurecido.

Esse trabalho não precisa ser uma farsa. Ele pode ser um processo de expansão do eu. Como um ator bem dirigido, a pessoa pode aprender a incorporar uma matriz de personagem – não para repetir falas artificiais, mas para descobrir modos de ser que estavam adormecidos, timidamente presentes ou mal treinados. Nesse sentido, o “personagem amoroso” é menos uma máscara e mais uma versão potencial de si mesmo, que encontra nas relações amorosas um palco para florescer.

No fim, o apaixonamento romântico-erótico é esse encontro entre um terreno humano preparado, um outro que encarna um ideal possível, a abertura explícita do canal amoroso e a dança delicada entre esperança e insegurança. Quando tudo isso se alinha, a fusão acontece e, por um tempo, o mundo fica mesmo colorido por aquela presença. Não porque o outro seja perfeito, mas porque, naquele estado, o olhar que pousa sobre ele – e sobre a própria vida – se torna capaz de enxergar beleza onde antes havia apenas neutralidade. É esse brilho a mais, essa reorganização profunda da percepção e da motivação, que faz com que a paixão seja, ao mesmo tempo, tão perigosa, tão irracional e tão irresistivelmente romântica.

(Texto editado pelo ChatGPT)

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