O apaixonamento romântico-erótico é,
antes de tudo, um fenômeno de fusão. Não é apenas “gostar muito” de alguém, nem
a soma de qualidades agradáveis que, empilhadas, produzem um resultado
especial. É algo mais radical: como quando hidrogênio e oxigênio se unem e
deixam de ser gases para virar água. Entre duas pessoas, a fusão amorosa cria
um estado novo, que não se reduz às características de cada um isoladamente.
Nasce um vínculo com sabor próprio, um tipo de apego em que a presença do outro
reorganiza o modo de sentir, de pensar e até de olhar o mundo.
Esse estado de fusão aparece em
outras áreas da vida: no amor por um filho, no apego a um cachorro ou gato, no
orgulho quase patriótico pela própria nação ou por um time de futebol. Em todas
essas situações, acontece algo semelhante: a pessoa se torna menos egoísta em
relação àquele objeto de apego, sente prazer em pensar nele, sacrifica tempo e
recursos, perdoa com mais facilidade. A crítica diminui, a aceitação aumenta.
Mas, no apaixonamento romântico-erótico, essa fusão ganha uma coloração
específica: envolve erotismo, projeto de casal, lugar social de “parceiro
amoroso” e uma promessa de vida compartilhada que não existe do mesmo modo na
amizade ou na parentalidade.
Para que essa linha de apaixonamento
possa surgir, não basta apenas encontrar alguém “interessante”. Há um pano de
fundo silencioso: um certo grau de suscetibilidade interna, um estado em que a
pessoa está disponível, carente, curiosa, ou simplesmente em um momento da vida
em que faz sentido se aproximar de alguém. Há também o campo de pessoas
elegíveis. Na prática, apaixonar-se intensamente por alguém de um mundo
completamente estranho ao seu é raro. As diferenças de classe, de estilo de
vida, de valores e de redes de relação funcionam como barreiras invisíveis. A
homogamia – essa compatibilidade de mundos – não garante a paixão, mas abre a
possibilidade. A heterogamia muito grande funciona como um freio: mesmo que
haja fascínio, o organismo psicológico percebe o tamanho da encrenca.
Além disso, existem os vetos. Há
pessoas que nos atraem à primeira vista, mas logo se revelam humilhantes,
indiferentes, agressivas, golpistas, mentalmente instáveis demais. Outras,
simplesmente não nos veem, não nos tratam bem, não nos dão nenhuma esperança. A
linha do apaixonamento, que poderia começar a se desenhar, é cortada pela
percepção de risco, injustiça ou inviabilidade. E há ainda os vetos internos:
quem já está comprometido e leva a sério esse compromisso pode desviar o olhar,
evitar certas aproximações, reinterpretar acontecimentos justamente para não
abrir espaço para um novo apaixonamento. O próprio senso de responsabilidade
funciona como antídoto contra o encantamento.
Quando, apesar disso, a paixão nasce,
quase sempre há uma figura específica que concentra o processo. Não é qualquer
pessoa. É alguém que, aos olhos de quem se apaixona, representa um certo ideal
de sucesso dentro do seu mundo. Alguém que seria admirado, respeitado, talvez
copiado pelos outros. Uma pessoa de cujo lado se teria orgulho de ser visto.
Mais do que isso: essa figura encarna o papel de parceiro amoroso desejável.
Tem características físicas que agradam, um jeito de ser que combina com o que
se espera de um cônjuge, um modo de viver que convida para um mundo no qual se
gostaria de entrar ou permanecer.
Mas ainda assim, só isso poderia
levar à amizade, à admiração distante, a uma relação profissional cordial. O
que desloca a relação para o canal propriamente amoroso é a marcação romântica.
A forma como o outro nos trata como homem ou como mulher, não apenas como
colega, amigo ou cliente. O olhar que reconhece nossa masculinidade ou
feminilidade de um jeito particular; o flerte, a atitude que deixa claro que
ali há desejo e interesse amoroso, não apenas simpatia. É essa marcação –
muitas vezes sutil, às vezes descaradamente charmosa – que abre o canal da
fusão romântico-erótica.
E então entra em cena algo que
Stendhal descreveu com grande precisão: a esperança combinada com uma certa
dose de insegurança. Se tudo parecer impossível desde o início, não há linha de
apaixonamento que se sustente. Se tudo for fácil demais, garantido, sem riscos,
a atenção se dispersa. O combustível da paixão é essa oscilação: um dia um
gesto de ternura, um olhar demorado, uma resposta calorosa; no outro, uma
demora, uma ausência, uma dúvida. Nessa alternância, a pessoa passa a pensar
mais, a desejar mais, a ler sinais, a comemorar pequenos avanços, a sofrer
levemente com as lacunas. O tempo de desejar, de fantasiar, de não ter
completamente, torna-se tão importante quanto o tempo de estar junto. É nesse
intervalo que a mente começa a cristalizar o outro, adorná-lo de qualidades,
imaginar cenas futuras, “melhorar” cada detalhe com a imaginação.
Quando essa cristalização atinge uma
certa intensidade, acontece a virada: a fusão amorosa propriamente dita. É o
momento em que “não consigo tirar os olhos de você” deixa de ser só uma frase
de música e vira um estado mental real. O outro passa a ocupar o centro do
campo de atenção. Pensar nele é prazeroso. A presença física acende o corpo e
acalma ao mesmo tempo. Os defeitos continuam lá, mas encolhem. Os erros são
relativizados, explicados, desculpados. Surge uma disposição espontânea para o
sacrifício, para a dedicação, para reorganizar planos. É aqui que a causalidade
se inverte: não foi a soma das pequenas qualidades que “fabricou” a paixão, é a
paixão que agora reorganiza a percepção de todas as pequenas coisas que o outro
faz.
Algo semelhante pode acontecer por
outras vias. No casamento arranjado, por exemplo, o compromisso vem antes da
fusão. Duas pessoas são colocadas no mesmo barco e, a partir daí, começam a ver
o mundo um pouco mais pelos olhos uma da outra. O pacto social e familiar
funciona como cimento; o amor pode crescer dentro dele com o tempo, às vezes
numa forma mais morna, mais próxima do amor de convívio. Há também o caminho
pragmático, em que alguém avalia prós e contras, percebe que aquela união é um
“bom negócio” afetivo, prático, social, e passa a olhar o parceiro com boa
vontade. Em ambas as vias, pode surgir carinho, apego, até uma forma de fusão.
Mas o apaixonamento romântico-erótico tem uma intensidade e uma rapidez
próprias: já nasce com a lente da fantasia positiva e com a tendência à
idealização.
Isso não significa que o
apaixonamento seja puro milagre, fora de qualquer compreensão. Pelo contrário,
até certo ponto é possível otimizar as chances de que ele aconteça entre duas
pessoas compatíveis. Quem deseja conquistar alguém precisa, antes de tudo,
estudar o mundo dessa pessoa: que tipo de figura é admirada ali, que estilo de
caráter é visto como respeitável, que tipo de parceiro ela teria orgulho de
apresentar socialmente, com quem se sentiria crescida, validada, ampliada. Em
seguida, é possível trabalhar para aproximar-se, de forma autêntica, de um
personagem amoroso que faça sentido dentro desse universo: modo de se vestir,
jeito de conversar, coragem, capacidade de iniciativa, delicadeza, humor,
firmeza, tudo isso pode ser ensaiado, afinado, amadurecido.
Esse trabalho não precisa ser uma
farsa. Ele pode ser um processo de expansão do eu. Como um ator bem dirigido, a
pessoa pode aprender a incorporar uma matriz de personagem – não para repetir
falas artificiais, mas para descobrir modos de ser que estavam adormecidos,
timidamente presentes ou mal treinados. Nesse sentido, o “personagem amoroso” é
menos uma máscara e mais uma versão potencial de si mesmo, que encontra nas
relações amorosas um palco para florescer.
No fim, o apaixonamento
romântico-erótico é esse encontro entre um terreno humano preparado, um outro
que encarna um ideal possível, a abertura explícita do canal amoroso e a dança
delicada entre esperança e insegurança. Quando tudo isso se alinha, a fusão
acontece e, por um tempo, o mundo fica mesmo colorido por aquela presença. Não
porque o outro seja perfeito, mas porque, naquele estado, o olhar que pousa
sobre ele – e sobre a própria vida – se torna capaz de enxergar beleza onde
antes havia apenas neutralidade. É esse brilho a mais, essa reorganização
profunda da percepção e da motivação, que faz com que a paixão seja, ao mesmo
tempo, tão perigosa, tão irracional e tão irresistivelmente romântica.
(Texto editado pelo ChatGPT)
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