A escolha de parceiros amorosos: lista, campo e
vínculo
A escolha de parceiros parece um
mistério porque a gente tenta explicá-la por uma única coisa: “as pessoas
escolhem pelo que desejam”. Só que, na vida real, a escolha amorosa tem
camadas. Existe uma lista de desejabilidade, existe um campo social
que dá valor relativo a essa lista, e existe um mecanismo de vínculo
que, uma vez acionado, muda a física do jogo.
1) A lista existe — mas ela não decide tudo
Quase todo mundo, em algum momento
da vida, entra em vínculos amorosos importantes. E, quando perguntamos o que é
“desejável” num parceiro, aparece uma lista relativamente comum, sobretudo no
topo: boa aparência (em algum grau), inteligência, boa conversa,
confiabilidade, valores, etc.
O curioso é que:
- no ápice da lista, há convergência;
- quando você desce do ápice, as pessoas
divergem.
O que alguém do “topo” considera
inaceitável, outro considera aceitável. Então a lista não é uma régua
universal. Ela é uma linguagem.
2) A lista é álgebra: os símbolos são preenchidos pelo contexto
“Cultura”, “boa conversa”, “boa
vida”, “nível”, “beleza”… Essas palavras são abstratas. Funcionam como
símbolos.
A lista é como álgebra:
- “cultura” é um X,
- “boa conversa” é um Y,
- “vida boa” é um Z.
O que vale X, Y e Z depende do campo:
do meio social, do mundo vivido, do padrão de comparação. O que é “bom” para um
pode ser insuficiente para outro. Por isso dá para existir consenso na forma da
lista e divergência no conteúdo.
3) Na entrada, manda a homogamia — e os vetos
Os fatos são claros: as pessoas
formam pares principalmente com base na homogamia (semelhança de mundo).
E isso vira filtro.
Muitas características são
contínuas — idade, escolaridade, estilo de vida — e têm graus. Mas, quando
passam de um limite, viram vetos: não é “ruim”, é “intolerável” ou “não
habita o mesmo mundo”.
Além disso, existe um princípio
assimétrico: deficiências pesam mais do que qualidades extras. Um
defeito que ultrapassa um limiar derruba mais do que um conjunto de virtudes
levanta.
4) Compensações existem (médias ponderadas), mas têm limite
Nem tudo é homogamia pura. Muitas
escolhas funcionam por “médias ponderadas de defeitos e qualidades”: um inconveniente pode ser
compensado por outro conveniente — dentro de certos limites.
Exemplo clássico: alguém não tão
bonito, mas bem-sucedido; alguém sem grande status, mas com presença,
competência relacional e mundo vivido; alguém com menos brilho, mas muito
estável e confiável.
O “dentro de certos limites” é
decisivo: há coisas que compensam e há coisas que não compensam.
5) Para ser amoroso, tem que haver atrativo
Um ponto simples, mas estrutural:
para a relação ser conjugal, precisa haver atrativo romântico-sexual em
algum grau. Sem isso, tende a virar amizade, coleguismo, parceria prática,
cuidado, conveniência.
E a atração pode nascer de dois
modos:
- rápida e forte (para alguns perfis, em certos
contextos),
- ou pelo convívio: a pessoa vai ficando
interessante com o tempo.
Até relações que começam por
interesse, arranjo ou contexto externo podem ganhar atração ao longo do
convívio.
6) Depois do vínculo, a lista perde poder
Aqui está o núcleo do “mistério”:
uma vez feita a conexão, a lista racional tem pouca influência.
As pessoas envelhecem juntas,
perdem atrativos, às vezes pioram no jeito, e ainda assim continuam ligadas.
Isso vale para amor, amizade, time, religião, ídolos: depois que eu me ligo,
posso continuar ligado mesmo que o objeto do vínculo mude.
O vínculo cria inércia:
história, investimento, rotina, identidade de “nós”.
7) Compromisso não apaga atração — fecha as chances
Pessoas comprometidas continuam
achando terceiros interessantes. A atração não desaparece.
O que muda é a gestão do risco:
- fecham oportunidades,
- reduzem escaladas,
- evitam situações.
Compromisso é menos “cegueira” e
mais controle de contingências.
8) Qualidades de ver, qualidades de conviver — e o peso de quem faz
Existem qualidades que encantam só
de observar: presença, segurança, jeito de agir, “espetáculo”. É por isso que
artistas “garantem o filme”.
E existem qualidades do convívio:
quão agradável, envolvente, interessante, quanto se aprende junto, quanto há
apoio e validação.
Mas um detalhe fino: o mesmo
gesto vale diferente dependendo de quem o emite. Ser ouvido por alguém que
eu respeito tem um peso enorme; ser ouvido por alguém que eu não considero pode
não valer nada.
9) Um atrativo pouco dito: autogoverno
A gente valoriza quem não é
facilmente controlado por pessoas e acontecimentos: quem não reage de imediato,
quem elabora, quem tem pausa, quem sustenta um ritmo interno. Isso parece
“presença”, “segurança”, “maturidade”.
E muitas vezes é sedutor: o outro
entra no ritmo, interrompe menos, concede espaço.
10) Carência muda a régua
Por fim, há o fator do observador:
carência sexual, social, amorosa. A fome muda a percepção do churrasco. Não
elimina vetos fortes, mas altera tolerâncias e prioridades.
Fecho: um modelo simples
- Entrada: elegibilidade → homogamia/vetos →
compensações → atrativo → oportunidade/contato.
- Manutenção: convívio → investimento → apego → fechamento
de alternativas → inércia do vínculo.
- Moduladores: qualidades de ver vs conviver, peso do
emissor, autogoverno, carência.
A escolha amorosa deixa de ser
“mágica” quando você para de olhar só para a lista e começa a ver o campo e o
vínculo. A lista ajuda a entrar; o vínculo explica por que ficamos.
(Artigo escrito com a ajuda do ChatGPT)