A primeira coisa a ser considerada é
que quase todo mundo — mais de 90% das pessoas no Brasil — se casa ou vive pelo
menos uma união consensual ao longo da vida. Isso é impressionante porque
confirma, de certo modo, a velha ideia popular de que quase toda panela
encontra sua tampa. Em outras palavras, grande parte das pessoas encontra
alguém que se atrai por ela, gosta dela e a elege como parceira amorosa. E isso
ocorre, em média, em todas as classes sociais, níveis econômicos, graus de
escolaridade, profissões e sistemas de valores.
Além disso, antes de chegar a um
compromisso mais estável, é comum que as pessoas tenham mais de um
relacionamento. Elas ficam, namoram, têm relações sexuais, se apaixonam, se
decepcionam, recomeçam. Para que isso aconteça, é preciso que encontrem alguém
que tenha pelo menos atração e algum tipo de interesse amoroso por elas. Um
estudo americano mostrou que, quando universitários convidavam desconhecidos
para sair à noite, cerca de metade dos convites era aceita, mesmo após uma
breve introdução. Isso sugere, de novo, que conseguir alguém para sair não é
algo tão raro ou tão extraordinário. Se metade aceita, é plausível pensar que
boa parte dos que recusaram o fez por estar comprometida, desconfiada, sem
atração suficiente ou simplesmente por estranhar o contexto do convite. Ou
seja, o dado talvez permita até um certo otimismo.
Também é interessante notar que, em
pesquisas com universitários, pelo menos cerca de metade declarou estar amando
no momento da coleta. Isso quer dizer que uma quantidade grande de pessoas
está, num dado momento, fortemente interessada em alguém. Ter sentimentos
amorosos intensos não é raro. E mais ainda: muita gente entra em
relacionamentos sem estar perdidamente apaixonada desde o início. Embora, no
Brasil, mais de 80% das pessoas declarem que para casar é preciso estar amando,
a prática concreta é mais variada. Em levantamento que realizei, por exemplo,
mulheres casadas afirmaram que o marido atual não era a pessoa mais desejada no
momento do casamento, mas que depois vieram, sim, a se apaixonar por ele. Tudo
isso aponta na mesma direção: relacionamento amoroso é algo comum. As pessoas
encontram alguém por quem se interessam e que se interessa por elas a ponto de
desenvolverem algum vínculo amoroso. Muitas têm mais de um relacionamento antes
de um compromisso sério, e muitas, depois de uma separação, voltam a se
envolver novamente.
Mas daí surge uma pergunta decisiva:
se o amor é tão comum, ele seria cego? A resposta mais clara é que não. O amor
não é cego. Se fosse, seria frequente vermos ricos se casando com pobres,
pessoas muito velhas com muito jovens, analfabetos com doutores, altos com
baixos, mundos radicalmente diferentes se unindo sem maiores dificuldades. Não
é isso que ocorre. O amor é bastante seletivo, e a norma mais geral que orienta
essa seleção é a homogamia. Em geral, namoram, ficam, transam e se casam
pessoas semelhantes em muitos aspectos: idade, escolaridade, nível econômico,
valores, aparência, estilo de vida. Há motivos fortes para isso. É mais fácil
ser compreendido por alguém parecido, apoiar e ser apoiado, ser aceito nos
círculos sociais e familiares do outro. Discrepâncias muito grandes costumam
gerar desconforto, conflito e controle social. Quando há diferenças acentuadas
de idade, estatura, escolaridade ou condição econômica, surgem suspeitas,
comentários, sanções, brincadeiras como a do “golpe do baú”. A vida
compartilhada também tende a fazer mais sentido quando os parceiros são
relativamente semelhantes: precisam se explicar menos, justificar menos,
negociar menos em certos pontos básicos.
Isso não quer dizer que os parceiros
precisem ser iguais em tudo. Em algumas áreas, a complementaridade é bem-vinda.
E muitas diferenças podem ser compensadas. Em várias situações, o que as
pessoas avaliam não é uma igualdade ponto por ponto, mas algo como uma média
ponderada de defeitos e qualidades. Alguém pode não ser tão bonito, mas ser
muito gentil. Pode não ter a altura desejada, mas ser muito charmoso, muito
eficaz na vida, muito interessante sexualmente. Um traço compensa outro, e o
peso desses atributos varia de pessoa para pessoa. Cada um tem sua própria
balança, seus critérios e suas compensações possíveis. Há, porém, atributos que
funcionam mais em termos relativos e outros que pesam quase de modo absoluto.
Idade, altura, escolaridade e valores costumam ser avaliados em relação ao
outro: são critérios comparativos. Já certas características — por exemplo,
desonestidade ou certos problemas muito graves — tendem a ser indesejáveis
quase independentemente de quem avalia.
Apesar de tudo isso, as pessoas não
sentem a vida amorosa como algo tão fácil. E têm razão em não senti-la assim.
Elas não se apaixonam por qualquer um, nem são correspondidas por qualquer um.
Querem maximizar as qualidades do parceiro, segundo um princípio hipergâmico, e
o outro faz o mesmo. Além disso, até chegar a um compromisso, o processo é
cheio de etapas, incertezas e desistências. Nas saídas iniciais, no namoro e no
convívio mais próximo, cada um vai conhecendo melhor o outro e testando não só
as qualidades do parceiro, mas a qualidade da combinação entre os dois. Às
vezes, duas pessoas ótimas não dão certo juntas. Têm peculiaridades, gostos,
estilos, ritmos e projetos que entram em atrito. Nesse sentido, o namoro cumpre
uma função essencial. Costuma-se dizer que o amor é cego; talvez seja mais
exato dizer que ele é míope, e que o namoro funciona como um bom par de óculos.
Conhecer o outro como namorado é muito diferente de conhecê-lo como amigo,
colega ou conhecido. Aparecem novas tarefas, novos privilégios, novos pactos,
novas exigências.
Por isso, é comum que as pessoas
tenham vários namoros, várias paixões e alguns amores antes de um compromisso
mais estável. É raro, hoje, encontrar quem só tenha beijado uma pessoa,
transado com uma só, casado com o primeiro namorado e permanecido numa linha
absolutamente reta. Isso existia mais em outros tempos. O mais natural, hoje, é
um percurso com várias experiências. E tudo isso acontece numa fase da vida em
que as pessoas também estão amadurecendo. A vida amorosa frequentemente começa
antes dos 17 ou 18 anos, enquanto o casamento ou a união estável costuma vir
mais perto dos 30. Nesse intervalo, a pessoa muda: estuda, trabalha, amplia
mundo, redefine valores, ganha experiência. Alguém que parecia muito
interessante aos 18 pode não parecer da mesma forma alguns anos depois. E,
nesse mesmo período, surgem muitas outras oportunidades de conhecer gente nova.
É uma fase de efervescência amorosa, com muita experimentação, prazer, medo,
tensão, recomeços e redefinições.
Depois, mesmo quando o relacionamento
se consolida, uma parte expressiva deles termina. E então a pessoa retorna ao
mercado amoroso em outras condições. Pode estar mais velha, pode ter filhos,
pode encontrar uma faixa etária em que muita gente já está comprometida, pode
carregar cicatrizes, medos ou exigências novas. A dificuldade muda de forma.
Não é mais a dificuldade do início da vida amorosa, mas a do reingresso. Ao
mesmo tempo, há pessoas que já partem com mais obstáculos: têm atributos menos
valorizados no mercado amoroso, são muito tímidas, retraídas, pouco
desenvoltas, não frequentam ambientes em que possam encontrar parceiros, têm
círculos sociais pequenos. Mesmo os contextos em que se conhece gente —
trabalho, faculdade, grupos — nem sempre ajudam tanto quanto se imagina, porque
envolvem constrangimentos, riscos e custos sociais se a tentativa der errado.
Portanto, a vida amorosa tem uma
dupla face. De um lado, é comum encontrar alguém para sair, se envolver,
namorar, amar, casar ou viver uma união consensual. De outro, isso não acontece
de forma automática, instantânea ou fácil para a maioria. Há seleção,
concorrência, filtros, desistências, compensações, vetos, amadurecimento,
timing e acaso. É justamente por isso que a experiência amorosa costuma ser
vivida ao mesmo tempo como algo comum e como algo difícil. O caminho, então, é
examinar mais de perto a natureza dessas dificuldades e, depois, pensar em
medidas que possam reduzi-las.
(Texto editado pelo ChatGpt)
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