domingo, março 08, 2026

Relacionamento amoroso: quase inevitável

 

A primeira coisa a ser considerada é que quase todo mundo — mais de 90% das pessoas no Brasil — se casa ou vive pelo menos uma união consensual ao longo da vida. Isso é impressionante porque confirma, de certo modo, a velha ideia popular de que quase toda panela encontra sua tampa. Em outras palavras, grande parte das pessoas encontra alguém que se atrai por ela, gosta dela e a elege como parceira amorosa. E isso ocorre, em média, em todas as classes sociais, níveis econômicos, graus de escolaridade, profissões e sistemas de valores.

Além disso, antes de chegar a um compromisso mais estável, é comum que as pessoas tenham mais de um relacionamento. Elas ficam, namoram, têm relações sexuais, se apaixonam, se decepcionam, recomeçam. Para que isso aconteça, é preciso que encontrem alguém que tenha pelo menos atração e algum tipo de interesse amoroso por elas. Um estudo americano mostrou que, quando universitários convidavam desconhecidos para sair à noite, cerca de metade dos convites era aceita, mesmo após uma breve introdução. Isso sugere, de novo, que conseguir alguém para sair não é algo tão raro ou tão extraordinário. Se metade aceita, é plausível pensar que boa parte dos que recusaram o fez por estar comprometida, desconfiada, sem atração suficiente ou simplesmente por estranhar o contexto do convite. Ou seja, o dado talvez permita até um certo otimismo.

Também é interessante notar que, em pesquisas com universitários, pelo menos cerca de metade declarou estar amando no momento da coleta. Isso quer dizer que uma quantidade grande de pessoas está, num dado momento, fortemente interessada em alguém. Ter sentimentos amorosos intensos não é raro. E mais ainda: muita gente entra em relacionamentos sem estar perdidamente apaixonada desde o início. Embora, no Brasil, mais de 80% das pessoas declarem que para casar é preciso estar amando, a prática concreta é mais variada. Em levantamento que realizei, por exemplo, mulheres casadas afirmaram que o marido atual não era a pessoa mais desejada no momento do casamento, mas que depois vieram, sim, a se apaixonar por ele. Tudo isso aponta na mesma direção: relacionamento amoroso é algo comum. As pessoas encontram alguém por quem se interessam e que se interessa por elas a ponto de desenvolverem algum vínculo amoroso. Muitas têm mais de um relacionamento antes de um compromisso sério, e muitas, depois de uma separação, voltam a se envolver novamente.

Mas daí surge uma pergunta decisiva: se o amor é tão comum, ele seria cego? A resposta mais clara é que não. O amor não é cego. Se fosse, seria frequente vermos ricos se casando com pobres, pessoas muito velhas com muito jovens, analfabetos com doutores, altos com baixos, mundos radicalmente diferentes se unindo sem maiores dificuldades. Não é isso que ocorre. O amor é bastante seletivo, e a norma mais geral que orienta essa seleção é a homogamia. Em geral, namoram, ficam, transam e se casam pessoas semelhantes em muitos aspectos: idade, escolaridade, nível econômico, valores, aparência, estilo de vida. Há motivos fortes para isso. É mais fácil ser compreendido por alguém parecido, apoiar e ser apoiado, ser aceito nos círculos sociais e familiares do outro. Discrepâncias muito grandes costumam gerar desconforto, conflito e controle social. Quando há diferenças acentuadas de idade, estatura, escolaridade ou condição econômica, surgem suspeitas, comentários, sanções, brincadeiras como a do “golpe do baú”. A vida compartilhada também tende a fazer mais sentido quando os parceiros são relativamente semelhantes: precisam se explicar menos, justificar menos, negociar menos em certos pontos básicos.

Isso não quer dizer que os parceiros precisem ser iguais em tudo. Em algumas áreas, a complementaridade é bem-vinda. E muitas diferenças podem ser compensadas. Em várias situações, o que as pessoas avaliam não é uma igualdade ponto por ponto, mas algo como uma média ponderada de defeitos e qualidades. Alguém pode não ser tão bonito, mas ser muito gentil. Pode não ter a altura desejada, mas ser muito charmoso, muito eficaz na vida, muito interessante sexualmente. Um traço compensa outro, e o peso desses atributos varia de pessoa para pessoa. Cada um tem sua própria balança, seus critérios e suas compensações possíveis. Há, porém, atributos que funcionam mais em termos relativos e outros que pesam quase de modo absoluto. Idade, altura, escolaridade e valores costumam ser avaliados em relação ao outro: são critérios comparativos. Já certas características — por exemplo, desonestidade ou certos problemas muito graves — tendem a ser indesejáveis quase independentemente de quem avalia.

Apesar de tudo isso, as pessoas não sentem a vida amorosa como algo tão fácil. E têm razão em não senti-la assim. Elas não se apaixonam por qualquer um, nem são correspondidas por qualquer um. Querem maximizar as qualidades do parceiro, segundo um princípio hipergâmico, e o outro faz o mesmo. Além disso, até chegar a um compromisso, o processo é cheio de etapas, incertezas e desistências. Nas saídas iniciais, no namoro e no convívio mais próximo, cada um vai conhecendo melhor o outro e testando não só as qualidades do parceiro, mas a qualidade da combinação entre os dois. Às vezes, duas pessoas ótimas não dão certo juntas. Têm peculiaridades, gostos, estilos, ritmos e projetos que entram em atrito. Nesse sentido, o namoro cumpre uma função essencial. Costuma-se dizer que o amor é cego; talvez seja mais exato dizer que ele é míope, e que o namoro funciona como um bom par de óculos. Conhecer o outro como namorado é muito diferente de conhecê-lo como amigo, colega ou conhecido. Aparecem novas tarefas, novos privilégios, novos pactos, novas exigências.

Por isso, é comum que as pessoas tenham vários namoros, várias paixões e alguns amores antes de um compromisso mais estável. É raro, hoje, encontrar quem só tenha beijado uma pessoa, transado com uma só, casado com o primeiro namorado e permanecido numa linha absolutamente reta. Isso existia mais em outros tempos. O mais natural, hoje, é um percurso com várias experiências. E tudo isso acontece numa fase da vida em que as pessoas também estão amadurecendo. A vida amorosa frequentemente começa antes dos 17 ou 18 anos, enquanto o casamento ou a união estável costuma vir mais perto dos 30. Nesse intervalo, a pessoa muda: estuda, trabalha, amplia mundo, redefine valores, ganha experiência. Alguém que parecia muito interessante aos 18 pode não parecer da mesma forma alguns anos depois. E, nesse mesmo período, surgem muitas outras oportunidades de conhecer gente nova. É uma fase de efervescência amorosa, com muita experimentação, prazer, medo, tensão, recomeços e redefinições.

Depois, mesmo quando o relacionamento se consolida, uma parte expressiva deles termina. E então a pessoa retorna ao mercado amoroso em outras condições. Pode estar mais velha, pode ter filhos, pode encontrar uma faixa etária em que muita gente já está comprometida, pode carregar cicatrizes, medos ou exigências novas. A dificuldade muda de forma. Não é mais a dificuldade do início da vida amorosa, mas a do reingresso. Ao mesmo tempo, há pessoas que já partem com mais obstáculos: têm atributos menos valorizados no mercado amoroso, são muito tímidas, retraídas, pouco desenvoltas, não frequentam ambientes em que possam encontrar parceiros, têm círculos sociais pequenos. Mesmo os contextos em que se conhece gente — trabalho, faculdade, grupos — nem sempre ajudam tanto quanto se imagina, porque envolvem constrangimentos, riscos e custos sociais se a tentativa der errado.

Portanto, a vida amorosa tem uma dupla face. De um lado, é comum encontrar alguém para sair, se envolver, namorar, amar, casar ou viver uma união consensual. De outro, isso não acontece de forma automática, instantânea ou fácil para a maioria. Há seleção, concorrência, filtros, desistências, compensações, vetos, amadurecimento, timing e acaso. É justamente por isso que a experiência amorosa costuma ser vivida ao mesmo tempo como algo comum e como algo difícil. O caminho, então, é examinar mais de perto a natureza dessas dificuldades e, depois, pensar em medidas que possam reduzi-las.

(Texto editado pelo ChatGpt)

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