(Ilustração do ChatGPT)
Há casais que não se separam.
Apenas desenvolvem uma sofisticada capacidade de não se notar.
Continuam dividindo a casa, o
café, as contas, o controle remoto e, em alguns casos, uma quantidade
respeitável de senhas de streaming. Sabem onde o outro guarda os óculos, que
lado da cama prefere e em que momento da manhã é melhor não iniciar uma conversa
séria.
Conhecem-se tanto que, às vezes,
deixam de se olhar.
No começo, era diferente.
Um sorriso parecia enigmático. Um
toque tinha importância. Uma frase banal podia ser repetida mentalmente durante
horas. Hoje, às vezes, a frase mais marcante do dia é:
“Você viu onde deixei a chave?”
A convivência tem dessas coisas.
Ela aproxima.
E ela acostuma.
Com o tempo, o extraordinário
corre o risco de virar mobília.
Não porque tenha deixado de ter
valor, mas porque está sempre ali. E aquilo que está sempre ali sofre de um
problema sério: a atenção humana gosta muito de novidades.
Por isso, um relacionamento pode
continuar bom e, ainda assim, perder energia. Pode haver respeito, apoio,
lealdade, companheirismo.
Tudo excelente.
Quase uma empresa muito bem
administrada.
Mas o amor amoroso exige alguma
coisa além da boa gestão.
Precisa de admiração.
Precisa de atração.
Precisa de uma pequena zona de
mistério.
Precisa daquela sensação de que o
outro ainda não foi totalmente catalogado, fichado e arquivado.
Às vezes a monotonia vem porque a
pessoa realmente ficou previsível.
Mas, em outras vezes, o problema
está no departamento de observação.
O parceiro continua mudando, mas
já foi promovido à categoria de “conhecido demais”.
“Eu sei exatamente como ele é.”
“Eu sei exatamente o que ela vai
dizer.”
Frases perigosíssimas.
Porque, quando achamos que já
sabemos tudo, paramos de perguntar.
E, quando paramos de perguntar,
logo descobrimos que o outro ficou “sem novidades”.
Quando gostamos muito de alguém,
costumamos interpretar bem.
Se o parceiro se atrasa, pensamos:
“coitado, deve ter acontecido alguma coisa”.
Depois de alguns anos e algumas
mágoas, o mesmo atraso pode produzir outra teoria:
“É evidente que não se importa
comigo.”
O fato é o mesmo.
Mudou a legenda.
O problema deixa de ser apenas o
que o outro faz.
Passa a ser a lente através da
qual o vemos.
E, enquanto isso, o mundo continua
cheio de pessoas novas.
Isso é um inconveniente
estrutural.
A pessoa nova chega sem histórico.
Não participou das discussões
sobre dinheiro.
Não sabe quem deveria ter ligado
para o encanador.
Nunca deixou uma toalha molhada no
lugar errado.
É quase impossível competir com
alguém que ainda não teve tempo de nos irritar.
Às vezes, o que seduz fora não é
exatamente outra pessoa.
É a sensação de começo.
É voltar a ser olhado com
curiosidade.
Voltar a contar histórias que o
outro ainda não conhece.
Voltar a parecer surpreendente.
Até o ciúme, às vezes, faz
milagres curiosos.
O parceiro que estava
discretamente integrado à paisagem pode recuperar valor assim que alguém
demonstra interesse.
É a versão adulta do brinquedo
esquecido no chão que se torna fascinante quando outra criança resolve pegá-lo.
Mas provocar ciúme de propósito é
uma estratégia pouco recomendável.
Pode aumentar a atenção.
Pode também transformar a sala de
estar em zona de conflito.
E, ainda assim, muitos
relacionamentos continuam durante décadas.
Há os filhos.
Há a casa.
Há os amigos.
Há o patrimônio.
Há as fotografias.
Há os lugares que só fazem sentido
porque foram frequentados juntos.
Há principalmente um “nós” que foi
sendo construído sem anúncio oficial.
Depois de muitos anos, separar-se
não é apenas deixar uma pessoa.
É desmontar uma pequena
civilização.
E civilizações, como sabemos, têm
infraestrutura.
Talvez por isso seja importante
distinguir três coisas.
Uma é continuar junto.
Outra é gostar de continuar junto.
E outra, bastante diferente, é
ainda olhar para o outro e pensar:
“Que pessoa interessante.”
Talvez o amor duradouro não
dependa de conservar para sempre a febre do começo.
Seria cansativo.
Ninguém conseguiria pagar contas,
levar o carro à oficina e trabalhar em estado permanente de paixão.
Talvez dependa de algo mais
simples e mais difícil:
continuar prestando atenção.
Depois de muitos anos, talvez a
pergunta não seja:
“Você ainda me ama?”
Talvez seja:
“Você ainda me vê — ou eu já virei
parte da decoração?”
(Texto editado pelo ChatGPT)