domingo, outubro 04, 2026

Você ficou invisível no seu casamento?

 



(Ilustração do ChatGPT)

Há casais que não se separam. Apenas desenvolvem uma sofisticada capacidade de não se notar.

Continuam dividindo a casa, o café, as contas, o controle remoto e, em alguns casos, uma quantidade respeitável de senhas de streaming. Sabem onde o outro guarda os óculos, que lado da cama prefere e em que momento da manhã é melhor não iniciar uma conversa séria.

Conhecem-se tanto que, às vezes, deixam de se olhar.

No começo, era diferente.

Um sorriso parecia enigmático. Um toque tinha importância. Uma frase banal podia ser repetida mentalmente durante horas. Hoje, às vezes, a frase mais marcante do dia é:

“Você viu onde deixei a chave?”

A convivência tem dessas coisas.

Ela aproxima.

E ela acostuma.

Com o tempo, o extraordinário corre o risco de virar mobília.

Não porque tenha deixado de ter valor, mas porque está sempre ali. E aquilo que está sempre ali sofre de um problema sério: a atenção humana gosta muito de novidades.

Por isso, um relacionamento pode continuar bom e, ainda assim, perder energia. Pode haver respeito, apoio, lealdade, companheirismo.

Tudo excelente.

Quase uma empresa muito bem administrada.

Mas o amor amoroso exige alguma coisa além da boa gestão.

Precisa de admiração.

Precisa de atração.

Precisa de uma pequena zona de mistério.

Precisa daquela sensação de que o outro ainda não foi totalmente catalogado, fichado e arquivado.

Às vezes a monotonia vem porque a pessoa realmente ficou previsível.

Mas, em outras vezes, o problema está no departamento de observação.

O parceiro continua mudando, mas já foi promovido à categoria de “conhecido demais”.

“Eu sei exatamente como ele é.”

“Eu sei exatamente o que ela vai dizer.”

Frases perigosíssimas.

Porque, quando achamos que já sabemos tudo, paramos de perguntar.

E, quando paramos de perguntar, logo descobrimos que o outro ficou “sem novidades”.

Quando gostamos muito de alguém, costumamos interpretar bem.

Se o parceiro se atrasa, pensamos: “coitado, deve ter acontecido alguma coisa”.

Depois de alguns anos e algumas mágoas, o mesmo atraso pode produzir outra teoria:

“É evidente que não se importa comigo.”

O fato é o mesmo.

Mudou a legenda.

O problema deixa de ser apenas o que o outro faz.

Passa a ser a lente através da qual o vemos.

E, enquanto isso, o mundo continua cheio de pessoas novas.

Isso é um inconveniente estrutural.

A pessoa nova chega sem histórico.

Não participou das discussões sobre dinheiro.

Não sabe quem deveria ter ligado para o encanador.

Nunca deixou uma toalha molhada no lugar errado.

É quase impossível competir com alguém que ainda não teve tempo de nos irritar.

Às vezes, o que seduz fora não é exatamente outra pessoa.

É a sensação de começo.

É voltar a ser olhado com curiosidade.

Voltar a contar histórias que o outro ainda não conhece.

Voltar a parecer surpreendente.

Até o ciúme, às vezes, faz milagres curiosos.

O parceiro que estava discretamente integrado à paisagem pode recuperar valor assim que alguém demonstra interesse.

É a versão adulta do brinquedo esquecido no chão que se torna fascinante quando outra criança resolve pegá-lo.

Mas provocar ciúme de propósito é uma estratégia pouco recomendável.

Pode aumentar a atenção.

Pode também transformar a sala de estar em zona de conflito.

E, ainda assim, muitos relacionamentos continuam durante décadas.

Há os filhos.

Há a casa.

Há os amigos.

Há o patrimônio.

Há as fotografias.

Há os lugares que só fazem sentido porque foram frequentados juntos.

Há principalmente um “nós” que foi sendo construído sem anúncio oficial.

Depois de muitos anos, separar-se não é apenas deixar uma pessoa.

É desmontar uma pequena civilização.

E civilizações, como sabemos, têm infraestrutura.

Talvez por isso seja importante distinguir três coisas.

Uma é continuar junto.

Outra é gostar de continuar junto.

E outra, bastante diferente, é ainda olhar para o outro e pensar:

“Que pessoa interessante.”

Talvez o amor duradouro não dependa de conservar para sempre a febre do começo.

Seria cansativo.

Ninguém conseguiria pagar contas, levar o carro à oficina e trabalhar em estado permanente de paixão.

Talvez dependa de algo mais simples e mais difícil:

continuar prestando atenção.

Depois de muitos anos, talvez a pergunta não seja:

“Você ainda me ama?”

Talvez seja:

“Você ainda me vê — ou eu já virei parte da decoração?”

(Texto editado pelo ChatGPT)