Quando a gente estuda o nascimento do amor, corremos o risco de cair em dois erros opostos. Um deles é imaginar que o amor depende de qualidades muito raras: a pessoa teria que ser altamente admirável, saber conversar de forma envolvente, flertar bem, acentuar masculinidade ou feminilidade, ter um mundo muito interessante para oferecer, ser charmosa, batalhadora, confiante, sedutora. O outro erro é imaginar o contrário: que o amor dispara facilmente, que qualquer pessoa desperta amor em qualquer outra e que basta haver algum convívio para tudo acontecer.
Nenhuma dessas duas visões parece
satisfatória. O que os fatos da vida mostram é outra coisa. Por um lado, quase
todo mundo acaba se envolvendo amorosamente alguma vez. A maioria namora, se
apaixona algumas vezes, ama algumas vezes, tenta construir vínculo, muitas
vezes se casa. Os próprios levantamentos mostram isso: as pessoas dizem que
amam quem namoram, dizem que para casar precisam amar. Então o amor, ou algo
muito próximo disso, não pode depender, como regra, de qualidades
extraordinárias e raríssimas. Se dependesse, seria um fenômeno muito mais raro
do que de fato é.
Por outro lado, a gente também não
sai se apaixonando por todo mundo. Nem por toda pessoa parecida conosco. Nem
por toda pessoa minimamente homogâmica. Nem por toda pessoa com quem
convivemos. Algumas pessoas se tornam amigas. Outras nem entram no campo amoroso.
Então também não dá para dizer que o amor é algo tão fácil assim, tão frouxo
assim, tão prontamente disparável assim. Ele é comum, mas não é banal. É
frequente, mas não é automático.
Talvez a melhor formulação seja
esta: o amor humano parece depender de condições relativamente comuns, mas
não triviais. Ou seja, não exige excelência rara, mas também não acontece a
qualquer momento e em qualquer direção.
O amor está mais em quem ama do que no amado?
Há uma ideia muito forte,
atribuída ao Buda, de que o amor está mais em quem ama do que no amado. Essa
ideia ajuda a pensar bastante coisa. Porque, se quase todo mundo consegue
despertar amor em alguém e vice-versa, então é improvável que quase todo mundo
possua, em alto grau, todas aquelas qualidades excepcionais que às vezes
colocamos como condição do amor. Não parece plausível imaginar que a maioria
das pessoas seja especialmente admirável, especialmente sedutora, especialmente
boa de conversa, especialmente boa de flerte, especialmente brilhante
socialmente.
Então a explicação mais plausível
é outra. O amor parece depender menos de raridades extraordinárias no amado e
mais de um conjunto de mecanismos mais comuns em quem ama: esperança,
imaginação, cristalização, disponibilidade para se envolver, capacidade de ver
no outro um possível parceiro, capacidade de investir afetivamente naquele
vínculo. Nesse sentido, o amor está mesmo, em grande parte, em quem ama.
Mas isso também não pode ser
exagerado. Porque o amado importa, sim. Não qualquer pessoa desperta isso em
nós. O outro precisa cair dentro de um certo campo de elegibilidade. Precisa
haver alguma homogamia, alguma atração, alguma abertura, alguma esperança de
reciprocidade. Então talvez a formulação mais justa não seja dizer que o amor
está só em quem ama, mas que ele depende fortemente da maquinaria de quem
ama, acionada por um objeto que cai dentro de certos filtros de possibilidade.
Homogamia: o grande moderador
Aí entra a homogamia. Esse ponto
parece central. Não no sentido de que as pessoas tenham de ser idênticas, mas
no sentido de que elas costumam se apaixonar e investir mais seriamente dentro
de um campo em que se sintam mais ou menos correspondíveis.
Isso ajuda a corrigir os dois
exageros anteriores. Se a gente dissesse que o amor depende de qualidades
excepcionais, teríamos dificuldade para explicar por que quase todo mundo
consegue viver isso alguma vez. Se dissesse que o amor dispara fácil demais,
teríamos dificuldade para explicar por que não andamos nos apaixonando por todo
mundo ao redor. A homogamia entra justamente como moderador. Ela restringe o
campo sem torná-lo raríssimo. Ela seleciona sem elitizar demais. Ela torna o
amor possível entre semelhantes e improvável entre pessoas muito discrepantes
em certos eixos decisivos.
É claro que isso não é uma grade
rígida. Há hipergamias moderadas, compensações, médias ponderadas de defeitos e
qualidades, complementaridades. Um pode ter mais de um lado, o outro compensa
de outro. Mas, de forma geral, a homogamia parece ser um dos grandes
condicionantes do nascimento do amor. Não o único. Mas talvez o mais importante
para impedir tanto o romantismo frouxo quanto a exigência exagerada.
O amor não é tão difícil quanto parece, mas também não é tão fácil
quanto parece
Quando a gente lê certas teorias
sobre relacionamento amoroso, pode ficar com a impressão de que se envolver
amorosamente é quase uma façanha técnica. Que a pessoa precisa ter capital
inicial alto, boa produção, boa conversa, bom flerte, boa presença, bom timing,
boa psicologia, bom mundo, boa leitura do outro. Tudo isso é verdadeiro e útil.
Mas, se tomarmos essas exigências em sua forma mais pesada, começamos a nos
afastar de um fato muito simples: quase todo mundo consegue se envolver
alguma vez.
Então a importância de todos esses
fatores precisa ser ponderada. Eles importam, sim, mas não podem ser tão
exigentes a ponto de contradizer o dado bruto de que o amor é comum na espécie
humana. Isso sugere que muita coisa necessária ao nascimento do amor não é rara
nem altamente técnica. Talvez várias dessas condutas — agradar, se enfeitar, se
destacar, flertar, tentar chamar atenção, mostrar-se mais atencioso,
apresentar-se como candidato amoroso — apareçam espontaneamente quando surge
alguém que nos atrai e quando há alguma esperança.
Ou seja: talvez essas coisas não
sejam dispensáveis, mas também não precisem ser ensinadas do zero à maioria das
pessoas. Elas tendem a surgir naturalmente quando o circuito amoroso começa
a se acender.
Preparação biológica e cultural
Essa hipótese é importante. Talvez
as pessoas já venham, biológica e culturalmente, relativamente preparadas para
entrar no jogo amoroso. Não no sentido de que tudo esteja pronto, mas no
sentido de que, quando aparece alguém que atrai dentro de um campo viável,
muita coisa já é naturalmente disparada: a vontade de agradar, a vontade de se
produzir, a vontade de aparecer melhor, de flertar, de ser mais atencioso, de
sinalizar valor, de acentuar traços de gênero, de marcar uma posição amorosa.
Isso ajuda a entender por que o
amor pode ser comum sem depender de grande sofisticação. As pessoas não
precisam dominar conscientemente uma teoria refinada do vínculo para que o
vínculo comece. Em muitos casos, o próprio interesse já as coloca em movimento.
O desejo ensina bastante coisa. A atração já reorganiza o comportamento em uma
direção amorosa.
Mas, novamente, isso não quer
dizer que todo mundo faça isso igualmente bem. Quase todo mundo apresenta
alguma versão espontânea desses movimentos, mas com qualidades e eficácia muito
variáveis. Uma pessoa faz isso com naturalidade e acerto; outra, de modo
desajeitado; outra quase não consegue fazer porque a inibição a bloqueia; outra
faz, mas para alvos muito difíceis; outra faz bem no início, mas mal na
manutenção.
Por que então as pessoas sentem tanta dificuldade?
Se o amor é relativamente comum e
se muita coisa necessária surge espontaneamente, por que tanta gente sente
dificuldade? Aqui entra outro ponto importante da conversa: a diferença entre a
frequência do amor e a sensação de dificuldade para alcançá-lo ou
mantê-lo.
Muita gente olha para cima. Mesmo
tendo qualidades, mira alguém que lhe traria algum grau de hipergamia. E aí
entra em competição com outros pretendentes. A pessoa desejada também olha para
cima, ou tem muitas opções, ou não vê naquele interessado vantagem suficiente.
Então surge a sensação de dificuldade.
Além disso, a sociedade produz
modelos de desejabilidade. Quem está muito distante desses modelos tende a
encontrar menos interessados, e isso também intensifica a sensação de
dificuldade. A mesma coisa vale para os muito inibidos, para os pouco visíveis,
para os que desaprenderam a circular, para os que perderam esperança, para os
que já passaram por muitas frustrações.
Há ainda um outro paradoxo. Quem é
mais atraente pode encontrar vínculos com mais facilidade, mas, como continua
atraindo, pode ter também mais trocas, mais instabilidade, mais recomeços, mais
dissoluções. Então a dificuldade não está só em começar; às vezes está em
manter.
Por isso existe uma
heterogeneidade real. O amor é comum, mas a dificuldade de chegar até ele, de
sustentá-lo e de repeti-lo com boa qualidade é muito desigual.
Para que servem então os conhecimentos sobre relacionamento?
Servem como aperfeiçoamento. Essa
talvez seja a melhor maneira de dizer. Se muita coisa necessária ao amor já
aparece naturalmente, isso não torna inúteis os conhecimentos sobre
relacionamento. Pelo contrário. Eles servem para refinar tendências naturais,
corrigir excessos, compensar desvantagens, aumentar a eficácia onde a
espontaneidade falha.
Saber se produzir melhor, saber
aumentar a visibilidade num ambiente, saber chamar a atenção de alguém
específico, saber conversar melhor, saber flertar sem se apagar nem invadir,
saber marcar posição amorosa, tudo isso continua sendo útil. Não porque o amor
dependa só dessas técnicas, mas porque quase todo mundo, em algum grau,
experimenta dificuldade. E alguns experimentam muita dificuldade.
Então a teoria e a prática não
substituem a espontaneidade amorosa; elas a aperfeiçoam. São ferramentas para
quem emperra, para quem tenta e não consegue, para quem sente demais a
competição, para quem tem pouca visibilidade, para quem se inibe, para quem
escolhe mal, para quem perde esperança.
Conclusão
Talvez a formulação mais
equilibrada seja a seguinte: o amor humano é um fenômeno comum, mas não
fácil; relativamente acessível, mas não automático; apoiado em condições
ordinárias, mas moderado por filtros reais.
Ele não depende, como regra, de
qualidades excepcionais raríssimas. Se dependesse, quase ninguém amaria. Mas
também não se acende por qualquer um, a qualquer momento, sem limites. Ele
exige algum grau de atração, de homogamia, de esperança, de reciprocidade
possível e de ausência de vetos fortes. E, uma vez que essas condições se
juntam, muitas das condutas que ajudam a catalisar o amor tendem a surgir
espontaneamente.
Daí o seu paradoxo central: o amor
é suficientemente fácil para acontecer com quase todo mundo ao longo da vida,
mas suficientemente difícil para que quase todo mundo sinta, em algum momento,
que ele custa, falha, escapa ou exige aperfeiçoamento.
É justamente por isso que vale a
pena estudá-lo. Não para transformá-lo em máquina, mas para entender melhor por
que ele é ao mesmo tempo tão comum e tão trabalhoso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário