O relacionamento pode desenvolver forças que o sustentam
O casal pode desenvolver apego
afetivo. Pode continuar experimentando atração romântica e sexual. Constrói um
mundo vivido em comum, forma uma unidade, compartilha uma identidade,
desenvolve compromissos e encontra no relacionamento uma importante fonte de
pertencimento e sentido para a vida.
Esses mecanismos não funcionam
isoladamente. Eles podem se reforçar mutuamente.
A convivência positiva favorece o
apego. O apego aumenta o interesse pela proximidade. A proximidade cria
oportunidades para intimidade, experiências compartilhadas e fortalecimento da
unidade do casal.
A construção de projetos comuns,
por sua vez, aumenta o comprometimento e o entrelaçamento das vidas.
Temos, portanto, um conjunto de
forças que pode contribuir para a manutenção do relacionamento sem que seja
necessário produzir continuamente grandes acontecimentos ou demonstrações
extraordinárias de amor.
O relacionamento pode desenvolver,
durante sua própria existência, parte das condições que favorecem sua
continuidade.
Então, por que tantos relacionamentos se deterioram?
Aqui chegamos ao ponto central da
nossa reflexão.
Se existem tantas forças
favoráveis à manutenção de um relacionamento, por que tantos casais acabam se
afastando, se tornando infelizes ou se separando?
Uma das razões é que os próprios
parceiros podem deteriorar as condições que favorecem a união.
Como isso acontece?
Por meio de críticas constantes,
desprezo, desconsideração, hostilidade, indiferença, brigas repetidas e
exigências excessivas.
Um parceiro passa a corrigir o
outro o tempo todo. Desvaloriza suas opiniões, ignora suas necessidades,
ridiculariza seus sentimentos ou transforma pequenas divergências em grandes
conflitos.
A convivência, que poderia ser uma
fonte de segurança, acolhimento e prazer, começa a produzir tensão e
sofrimento.
Com o tempo, essas experiências
favorecem o desenvolvimento de atitudes negativas em relação ao parceiro.
A pessoa começa a antecipar que a
presença do outro poderá trazer críticas, cobranças e conflitos. Passa a ficar
defensiva, evita conversas, diminui a intimidade e pode perder o prazer da
companhia.
O parceiro, que anteriormente era
uma fonte de experiências positivas, passa a ser associado também a
experiências desagradáveis.
É assim que muitos relacionamentos
vão sendo deteriorados.
As forças de manutenção podem
continuar presentes. Ainda existem compromissos, filhos, apego,
responsabilidades e uma história compartilhada.
Mas agora essas forças precisam
coexistir com sentimentos negativos que foram se desenvolvendo durante a
convivência.
E, em algumas situações, o
sofrimento torna-se tão grande que o relacionamento deixa de ser satisfatório
ou mesmo viável.
A primeira recomendação: não estrague o relacionamento
É por isso que gostaria de
apresentar uma recomendação aparentemente simples, mas muito importante:
Antes de se preocupar em fazer
coisas extraordinárias para manter seu relacionamento, procure não destruir
aquilo que já funciona.
Não transforme toda divergência em
uma discussão.
Não trate seu parceiro como um
adversário.
Não faça da convivência uma
sucessão de críticas, cobranças e desconsiderações.
Não deixe que a pessoa com quem
você compartilha sua vida passe a associar sua presença principalmente a
experiências desagradáveis.
Isso não significa que devemos
aceitar qualquer comportamento, evitar todos os conflitos ou permanecer em
relacionamentos prejudiciais.
Existem incompatibilidades
importantes, problemas de confiança, traições, agressões e situações que exigem
mudanças profundas ou até o término da relação.
Mas, quando existem condições
básicas de compatibilidade, respeito e atração, a convivência não precisa ser
transformada em uma batalha permanente.
Muitas vezes, proteger o
relacionamento significa simplesmente evitar comportamentos que desgastam
desnecessariamente o vínculo.
A segunda recomendação: podemos tornar o relacionamento ainda melhor
É claro que não estou dizendo que
basta evitar brigas para garantir um relacionamento satisfatório.
Também não estou afirmando que
essas forças naturais sejam suficientes para manter qualquer casal unido.
O que estou dizendo é que elas
representam uma base importante.
E essa base pode ser enriquecida.
Podemos melhorar a comunicação,
demonstrar carinho, apoiar o parceiro, cultivar a admiração, preservar a
intimidade romântica e sexual e introduzir novidades na vida compartilhada.
Podemos diversificar os programas,
desenvolver novos interesses, ampliar o mundo vivido pelo casal e tornar a
convivência mais estimulante.
Existem muitas maneiras de
melhorar deliberadamente a qualidade do relacionamento.
Mas esse será o assunto de outra
conversa.
Hoje quero destacar uma ideia
anterior a todas essas técnicas: precisamos reconhecer que o relacionamento já
possui forças que favorecem sua manutenção.
Conclusão: três ideias fundamentais
Gostaria que vocês guardassem três
ideias desta nossa conversa.
Primeira: os relacionamentos amorosos
possuem mecanismos psicológicos, afetivos e sociais que favorecem sua
continuidade. Alguns já estão presentes na formação do casal; outros se
desenvolvem durante a convivência.
Segunda: esses mecanismos podem ser
enfraquecidos ou prejudicados pelos próprios parceiros, especialmente quando a
convivência passa a ser marcada por críticas, desprezo, indiferença e conflitos
destrutivos.
Terceira: além de preservar as forças
existentes, podemos tomar iniciativas para melhorar a qualidade do
relacionamento, tornando a convivência mais agradável, significativa, íntima e
estimulante.
Portanto, não precisamos pensar
que um relacionamento amoroso tem de ser construído novamente, a partir do
zero, todos os dias.
Em condições favoráveis, ele já
dispõe de importantes forças que contribuem para sua manutenção.
E é por isso que gostaria de
terminar com uma recomendação:
O relacionamento amoroso já tem
muita coisa a seu favor. Primeiro, não estrague o que funciona. Depois, procure
melhorar aquilo que pode ser melhorado.
Talvez essa seja uma das maneiras
mais simples de começar a cuidar melhor da vida a dois.
Esse texto reúne os mecanismos de
manutenção, a prevenção da deterioração e a possibilidade de aperfeiçoamento,
preservando a distinção entre estabilidade e satisfação. A linguagem foi
organizada para uma exposição oral, com trechos que podem ser utilizados separadamente
em vídeos curtos.
Para a live, considero
especialmente importante dar destaque à frase “O relacionamento pode produzir
as próprias forças que ajudam a mantê-lo”, pois é nela que está uma das ideias
teoricamente mais interessantes da sua proposta.
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